Versos Narcísicos


A cada vez que te olho,
profundamente, nos olhos,
teu fascínio me envolve
em densa névoa de ilusão.

Saborosos — teus lábios.
Teu farto cabelo emoldura lhe
A face: plácida.

Amo-te mais do que
sempre amei,
e jamais amarei —
pois tu, minha doce,

amarga donzela, és tudo
que existiu e existirá:
minha alegria... vem de você!
E minha devoção e pra você

Este amor, para sempre,
ficará em mim,
pois sou tudo o que há
Em ti 










As Sombras de Sophia


Além do bem e do mal, nos provoca a refletir:
"Quando você olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você"


Num lugar anterior ao tempo,
Sophia já dançava com esse presságio.
Ela via o que escapa aos olhos divinos:
as possibilidades profanas à espreita,
ocultas nas entrelinhas do caos.

É como olhar para as nuvens
em tardes de sol calmo
e vê-las, inquietas,
moldarem formas sobre formas
sem jamais se deterem.

E nós em meio a isso?
Seguimos fitando sombras,
interpretando reflexos,
abraçando o que parece ser —
mas não é.

Na tentativa de retornar para a  beleza original
Do plano onde as ideias são perfeitas 
Onde não veremos apenas reflexos
E sim, a realidade sem os véus das ilusões...











Presente onírico Part.II

🎈11 de março de 2022, sexta-feira – Cabo Frio, RJ

    No meu aniversário estava na plateia de um ensaio que acontecia em um estúdio de música, assistindo André Matos cantar Carry On. Permanecia de pé, observando-o de perfil. Havia uma barreira física entre nós e o palco, e eu cantava emocionada em perfeita sincronia, bem próxima a essa divisória.

    De repente, André notou minha presença. Caminhou em minha direção olhando profundamente nos meus olhos, com um sorriso contagiante,  me entregou o microfone no último refrão, e cantei a plenos pulmões: "The remains from the past, to carry on, The remains from the past..." para a plateia que nos ouvia não houve troca de som, o nosso timbre era idêntico, como se fosse uma única voz, continua... Em seguida ele, virou-se e saiu.

    Fiquei em êxtase. A força emanada de sua presença e a potência daquele vocal reverberavam de forma avassaladora, entorpecendo todos os meus sentidos, meu corpo vibrava inebriado com ondas pulsantes de calor que irradiava de dentro para fora. Como se algo tivesse despertado em mim, acordei tomada por uma comoção profunda — algo em meu coração se transformou para sempre neste dia.









A Fusão

🐦‍🔥ℙ𝕒𝕣𝕥, 𝕀

Em meu coração
há um pássaro negro
que voa na noite
sem destino.

Sua contraparte,
que voava na luz do dia,
em direção ao sol,
queimou as asas
e está gravemente ferido —
mas ainda vive.

Durante o silêncio
em solitude, quando ninguém
esta olhando, eu lhe digo:

você vai ficar bem.
E voaremos juntos novamente,
direto para o amor.
Esse é o nosso
pacto secreto.

ℙ𝕒𝕣𝕥, 𝕀𝕀

Na penumbra da manhã,
quando o mundo ainda dorme
e o tempo suspira devagar,
os pássaros se encontram.

O negro, cansado de fugir
moldado na noite,
trazia em si o silêncio do abismo.
O branco, cansado de cair
marcado pelo desejo de altura.

E ali, no limiar entre noite e dia,
olham-se como espelhos
que enfim se compreendem.

E ao se tocarem,
não houve choque —
houve música.
Fundiram-se

Alçando voo,
não para o sol,
mas para além dele
onde o amor não queima





Impermanência do tempo

 

Das belezas passageiras
me apeguei ao bem-estar
naquele tempo, onde o charco
ainda estava fresco.

Tudo passa, me disseram:
o mal-estar passará,
a bem-aventurança passará.

A juventude passa.
Passou,
por entre meus dedos,
diante de meus olhos.

O questionamento passa,
e a resposta passará.
Tudo acaba e se renova.
De onde surgiu esse plano?

Funesto.
A vida passa, enquanto
a impermanência reina
sobre o tempo
.




𝕍𝕖𝕣𝕤𝕠𝕤 𝕒𝕠 𝕧𝕖𝕟𝕥𝕠

Esses versos são véus, 

não dizem de mim 

Sou o sopro que 

escapa entre palavras,

e o coração, ah… 

esse, já não é meu.

Pertence ao vento, 

ao dia que passa

sem pressa de ficar.


E, no entanto, co-criamos

jardins onde antes era pedra,

paisagens que nascem

no compasso do olhar calmo.

Nos caminhos do coração,

ainda pulsa uma canção

serena, quase esquecida.



 



O Enigma da Bruxa

🌕 28 de Fevereiro de 2024, Quarta-Feira - Lua Cheia

No estado etéreo da consciência, atravessei os portões daquela cidadela Lyra van Garden, fundada por Lua Valentia no plano astral. Logo na entrada, um jardim exuberante com folhagens exóticas e altivas, havia naquele lugar um magnetismo implacável que me fazia seguir adiante com curiosidade.
    Observar a rotina da bruxa que edificou aquele império, homens poderosos, de terras distantes e realidades paralelas, vinham visita-la fascinados, pelo poder que ela irradiava. Entre os visitantes, se destacava um cavalheiro americano com trajes do século XVIII. Este a cortejava com elegância, mas por trás dos gestos refinados, escondia a ambição crua de destroná-la. Durante um passeio pelo jardim tive uma visão remota: vislumbrei o instante exato em que, ao se aproximarem das imensas plantas carnívoras, ele a beijaria apenas para empurrá-la para o abraço à mortal da planta. 
    Mas Lua antecipou-se ao golpe, no momento em que estavam diante das sinistras vegetação mortal, ela assumiu o controle. Beijou-o primeiro  com intensidade e domínio e, num gesto rápido, inverteu os papéis. E por fim foi ele quem terminou devorado, entregue às mandíbulas famintas das plantas. O jardim mergulhou em um silêncio fúnebre, rompido apenas pelo som viscoso da digestão. Um aroma ácido tomou o ar. Lua, impassível, não olhou para trás. E fui levada de volta para meu quarto...




Liturgia do sonhar

  Morpheus, escultor de névoas, teço-me em teus dedos como bruma que dança no ventre da noite. Tu, que bordas silêncios com fios de est...