Liturgia do sonhar

 Morpheus, escultor de nĂ©voas,

teço-me em teus dedos
como bruma que dança
no ventre da noite.

Tu, que bordas silĂȘncios
com fios de estrela,
leva-me ao centro do Sonhar,
onde o tempo adormece
e os sĂ­mbolos florescem em segredo.

NĂŁo venho para fugir —
venho para lembrar
o que a alma sempre soube
antes da aurora do mundo.

Ensina-me a ver
com olhos fechados,
a tocar o invisĂ­vel
com a pele do espĂ­rito.

E quando findar a vigĂ­lia,
que seja em ti
que eu desperte.





MemĂłria Solar

Guardei um registro fulgurante!
a tarde que caminhĂĄvamos
pela orla incandescente,
e os corpos se espelhavam...

VocĂȘ me disse que eu era ferro,
ainda sim, escolhi cada instante
da sua presença antídoto.

Na borda solar, 
imaginĂĄvamos riquezas sem cifras. 
Rimos diante de silhuetas espectrais
e, naquele instante, 
Despertei, daquele sonho dourado...












Suspiro de Liberdade

A roda da vida
segue a girar
Passei pelo luto
e pela dor —
experimentei a liberdade
toquei a alegria
Apesar da leveza do ser
um suspiro pesado
rompe o silĂȘncio
dos meus pensamentos
Carrego marcas 
mas sigo —
porque a liberdade,
mesmo breve,
faz o coração respirar
com esperança.






Versos NarcĂ­sicos


A cada vez que te olho,
profundamente, nos olhos,
teu fascĂ­nio me envolve
em densa névoa de ilusão.

Saborosos — teus lĂĄbios.
Teu farto cabelo emoldura lhe
A face: plĂĄcida.

Amo-te mais do que
sempre amei,
e jamais amarei —
pois tu, minha doce,

amarga donzela, és tudo
que existiu e existirĂĄ:
minha alegria... vem de vocĂȘ!
E minha devoção e pra vocĂȘ

Este amor, para sempre,
ficarĂĄ em mim,
pois sou tudo o que hĂĄ
Em ti 










As Sombras de Sophia


Além do bem e do mal, nos provoca a refletir:
"Quando vocĂȘ olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para vocĂȘ"


Num lugar anterior ao tempo,
Sophia jå dançava com esse pressågio.
Ela via o que escapa aos olhos divinos:
as possibilidades profanas Ă  espreita,
ocultas nas entrelinhas do caos.

É como olhar para as nuvens
em tardes de sol calmo
e vĂȘ-las, inquietas,
moldarem formas sobre formas
sem jamais se deterem.

E nĂłs em meio a isso?
Seguimos fitando sombras,
interpretando reflexos,
abraçando o que parece ser —
mas nĂŁo Ă©.

Na tentativa de retornar para a  beleza original
Do plano onde as ideias sĂŁo perfeitas 
Onde nĂŁo veremos apenas reflexos
E sim, a realidade sem os véus das ilusÔes...











Presente onĂ­rico Part.II

🎈11 de março de 2022, sexta-feira – Cabo Frio, RJ

    No meu aniversĂĄrio estava na plateia de um ensaio que acontecia em um estĂșdio de mĂșsica, assistindo AndrĂ© Matos cantar Carry On. Permanecia de pĂ©, observando-o de perfil. Havia uma barreira fĂ­sica entre nĂłs e o palco, e eu cantava emocionada em perfeita sincronia, bem prĂłxima a essa divisĂłria.

    De repente, AndrĂ© notou minha presença. Caminhou em minha direção olhando profundamente nos meus olhos, com um sorriso contagiante,  me entregou o microfone no Ășltimo refrĂŁo, e cantei a plenos pulmĂ”es: "The remains from the past, to carry on, The remains from the past..." para a plateia que nos ouvia nĂŁo houve troca de som, o nosso timbre era idĂȘntico, como se fosse uma Ășnica voz, continua... Em seguida ele, virou-se e saiu.

    Fiquei em ĂȘxtase. A força emanada de sua presença e a potĂȘncia daquele vocal reverberavam de forma avassaladora, entorpecendo todos os meus sentidos, meu corpo vibrava inebriado com ondas pulsantes de calor que irradiava de dentro para fora. Como se algo tivesse despertado em mim, acordei tomada por uma comoção profunda — algo em meu coração se transformou para sempre neste dia.









A FusĂŁo

🐩‍đŸ”„â„™đ•’đ•Łđ•„, 𝕀

Em meu coração
hĂĄ um pĂĄssaro negro
que voa na noite
sem destino.

Sua contraparte,
que voava na luz do dia,
em direção ao sol,
queimou as asas
e estĂĄ gravemente ferido —
mas ainda vive.

Durante o silĂȘncio
em solitude, quando ninguém
esta olhando, eu lhe digo:

vocĂȘ vai ficar bem.
E voaremos juntos novamente,
direto para o amor.
Esse Ă© o nosso
pacto secreto.

â„™đ•’đ•Łđ•„, 𝕀𝕀

Na penumbra da manhĂŁ,
quando o mundo ainda dorme
e o tempo suspira devagar,
os pĂĄssaros se encontram.

O negro, cansado de fugir
moldado na noite,
trazia em si o silĂȘncio do abismo.
O branco, cansado de cair
marcado pelo desejo de altura.

E ali, no limiar entre noite e dia,
olham-se como espelhos
que enfim se compreendem.

E ao se tocarem,
nĂŁo houve choque —
houve mĂșsica.
Fundiram-se

Alçando voo,
nĂŁo para o sol,
mas para além dele
onde o amor nĂŁo queima





ImpermanĂȘncia do tempo

 

Das belezas passageiras
me apeguei ao bem-estar
naquele tempo, onde o charco
ainda estava fresco.

Tudo passa, me disseram:
o mal-estar passarĂĄ,
a bem-aventurança passarå.

A juventude passa.
Passou,
por entre meus dedos,
diante de meus olhos.

O questionamento passa,
e a resposta passarĂĄ.
Tudo acaba e se renova.
De onde surgiu esse plano?

Funesto.
A vida passa, enquanto
a impermanĂȘncia reina
sobre o tempo
.




đ•đ•–đ•Łđ•€đ• đ•€ 𝕒𝕠 đ•§đ•–đ•Ÿđ•„đ• 

Esses versos sĂŁo vĂ©us, 

nĂŁo dizem de mim 

Sou o sopro que 

escapa entre palavras,

e o coração, ah… 

esse, jĂĄ nĂŁo Ă© meu.

Pertence ao vento, 

ao dia que passa

sem pressa de ficar.


E, no entanto, co-criamos

jardins onde antes era pedra,

paisagens que nascem

no compasso do olhar calmo.

Nos caminhos do coração,

ainda pulsa uma canção

serena, quase esquecida.



 



O Enigma da Bruxa

🌕 28 de Fevereiro de 2024, Quarta-Feira - Lua Cheia

No estado etĂ©reo da consciĂȘncia, atravessei os portĂ”es daquela cidadela Lyra van Garden, fundada por Lua Valentia no plano astral. Logo na entrada, um jardim exuberante com folhagens exĂłticas e altivas, havia naquele lugar um magnetismo implacĂĄvel que me fazia seguir adiante com curiosidade.
    Observar a rotina da bruxa que edificou aquele impĂ©rio, homens poderosos, de terras distantes e realidades paralelas, vinham visita-la fascinados, pelo poder que ela irradiava. Entre os visitantes, se destacava um cavalheiro americano com trajes do sĂ©culo XVIII. Este a cortejava com elegĂąncia, mas por trĂĄs dos gestos refinados, escondia a ambição crua de destronĂĄ-la. Durante um passeio pelo jardim tive uma visĂŁo remota: vislumbrei o instante exato em que, ao se aproximarem das imensas plantas carnĂ­voras, ele a beijaria apenas para empurrĂĄ-la para o abraço Ă  mortal da planta. 
    Mas Lua antecipou-se ao golpe, no momento em que estavam diante das sinistras vegetação mortal, ela assumiu o controle. Beijou-o primeiro  com intensidade e domĂ­nio e, num gesto rĂĄpido, inverteu os papĂ©is. E por fim foi ele quem terminou devorado, entregue Ă s mandĂ­bulas famintas das plantas. O jardim mergulhou em um silĂȘncio fĂșnebre, rompido apenas pelo som viscoso da digestĂŁo. Um aroma ĂĄcido tomou o ar. Lua, impassĂ­vel, nĂŁo olhou para trĂĄs. E fui levada de volta para meu quarto...




Presente OnĂ­rico Part. I

Certa vez, sonhei que caminhava descalço na praia das dunas em cabo frio, meus pés tocando a areia me trazia uma sensação de calor reconfortante. A brisa leve e refrescante acariciava meu rosto, trazendo consigo o acalento que aquecia meu coração. Sentei-me à beira do mar, a agua estava tranquila. Tirei do bolso um bloco de notas, e os versos derramando-se no papel, sem que eu precisasse anota-los:.
 Na imensidĂŁo tranquila desse infinito azul
contemplei a paz em meu coração.
Um silĂȘncio profundo,
Se rompe em uma canção
celeste, ecoando o vasto infinito.
A vibração das notas invade o meu ser,
E meus olhos flamejantes
se perdem no horizonte.
Sento-me Ă  beira-mar, observando os passos 
meus deixados na areia,
me pergunto, em silĂȘncio:
Que segredos a prĂłxima onda
me trarĂĄ, desta vez? 
De repente, um estrondo rompeu a harmonia do silĂȘncio. Olhei para o horizonte e vi, um caminhĂŁo pesado deslizando lentamente sobre as ĂĄguas. Mesmo assim, o mar nĂŁo se agitou, e o azul tranquilo permaneceu intocado. E ali, em meio ao paradoxo, eu entendi que a essĂȘncia interior nĂŁo se deixa abalar, mesmo pelos maiores estrondos da realidade.



NĂŁo adentre a boa noite apenas com ternura | Dylan Thomas


 “NĂŁo adentre a noite apenas com ternura.

A velhice queima e clama ao cair do dia.

FĂșria, fĂșria contra a luz que jĂĄ nĂŁo fulgura.

Embora seja ao sĂĄbio, no fim, a treva que perdura,

Pelas palavras que nĂŁo reluzem Ă  centelha tardia,

NĂŁo adentre a boa noite apenas com ternura.

Ao bom, no ultimato, chorando com tristura

Suas fracas açÔes, na dança que as brilharia,

FĂșria fĂșria contra a luz que jĂĄ nĂŁo fulgura.

Ao Livre, qual sustou o sol, do voo, com fartura,

E aprendeu, tarde, que assim seu caminho afligia,

NĂŁo adentre a boa noite apenas com ternura.

Ao sĂ©rio, rente Ă  morte, que vĂȘ com negrura.

A Cegueira pode, qual cometa, queimar em alegria.

FĂșria, fĂșria contra a luz que jĂĄ nĂŁo fulgura.

E a ti, meu pai, rezo eu, que da triste altura,

A mim pragueis e benzeis, com sua lĂĄgrima bravia.

NĂŁo adentre a boa noite apenas com ternura.

FĂșria, fĂșria contra a luz que jĂĄ nĂŁo fulgura.”


SĂł | Edgar Allan Poe


NĂŁo fui, na infĂąncia, como os outros

e nunca vi como outros viam.

Minhas paixÔes eu não podia

tirar de fonte igual Ă  deles;

e era outra a origem da tristeza,

e era outro o canto, que acordava

o coração para a alegria.

Tudo o que amei, amei sĂłzinho.

Assim, na minha infĂąncia, na alba

da tormentosa vida, ergueu-se,

no bem, no mal, de cada abismo,

a encadear-me, o meu mistério.

Veio dos rios, veio da fonte,

da rubra escarpa da montanha,

do sol, que todo me envolvia

em outonais clarÔes dourados;

e dos relĂąmpagos vermelhos

que o céu inteiro incendiavam;

e do trovĂŁo, da tempestade,

daquela nuvem que se alterava,

só, no amplo azul do céu puríssimo,

como um demĂŽnio, ante meus olhos.










Olhar eterno

Eu sou o sol,
do meu prĂłprio sistema,
Como um demiurgo,
teço com raios invisíveis
a teia do existir.

Sou a força que cria,
o pulsar que anima o mundo,
onde sombras e luzes dançam
sob o meu olhar eterno.

Em cada ĂĄtomo, um reflexo
do meu ser incandescente.
E assim, ao meu redor,
co-crio o cosmos em expansĂŁo.






Atemporal ⌛

Espelho d'ĂĄgua em movimento,
Em meio Ă  turbulĂȘncia deste dia,
Os elementos se encontram em harmonia,

Desenhando no ar um horizonte infindo,
Com suas cores que dançam nas sombras da luz.
Este janeiro Ă© de poesia fĂșnebre,

Onde a morte e a vida se abraçam,
Como uma fĂȘnix,
Que das cinzas se levanta
E finalmente, alça voo.

Encontrei-me com mestres, vaidosos,
E, pelo caminho, proferi palavras vĂŁs,
"HistĂłrias torpes exauriram a jovem inocĂȘncia"

Na quietude da noite,
Caminhei entre os solitĂĄrios pensadores,
Observando o mundo
E por ele sendo absorvida 




Metamorfose do Ar

 Sonhava que treinava em uma pista de moto escola, mas, ao invĂ©s de aprender a pilotar uma moto, eu usava meu prĂłprio corpo como propulsĂŁo. Acelerava atĂ© atingir a velocidade mĂĄxima, me lançando para o alto, transformando-me em um dragĂŁo cinza e fluido. Voava em espirais pelos cĂ©us noturnos, minha forma serpenteando no ar me trazia forte senso de adrenalina, liberdade e poder. A pressĂŁo atmosfĂ©rica pressionava minha face com força, uma sensação de domĂ­nio que durava apenas breves minutos, atĂ© que perdia velocidade e voltava Ă  forma humana, tocando o solo. Minha essĂȘncia era fluĂ­da, como se minha substĂąncia fosse feita de Ă©ter, a sensação de fluidez da cauda do dragĂŁo dançando pelas correntes de ar, me traziam uma graça hipnĂłtica, acordei em ĂȘxtase intenso  



đ•±đ–Šđ–˜đ–™đ–† 𝖊𝖘𝖙𝖗𝖆𝖓𝖍𝖆 𝖈𝖔𝖒 𝖌𝖊𝖓𝖙𝖊 𝖊𝖘𝖖𝖚𝖎𝖘𝖎𝖙𝖆

𝟔 𝒅𝒆 𝒂𝒈𝒐𝒔𝒕𝒐 𝒅𝒆 𝟐𝟎𝟐𝟏, đ‘č𝒆𝒈𝒊𝒔𝒕𝒓𝒐 đ‘¶đ’Ă­đ’“đ’Šđ’„đ’đŸŒ™ đ‘©đ’†đ’đ’ 𝑯𝒐𝒓𝒊𝒛𝒐𝒏𝒕𝒆

𝔈𝔠𝔬𝔰 đ”«đ”Źđ”±đ”Čđ”Żđ”«đ”Źđ”°

❝ NĂŁo tenha medo da solidĂŁo!
a salvação nĂŁo chega a cavalo,
ao final de noites vazias. 
Nos sentamos em ruas sombrias,
Esperando o beijo da redenção...
Toda esperança,
esta noite foi em vĂŁo ❞





Liturgia do sonhar

  Morpheus, escultor de nĂ©voas, teço-me em teus dedos como bruma que dança no ventre da noite. Tu, que bordas silĂȘncios com fios de est...